"Estava cansado de si mesmo, dos seus estéreis pensamentos e visões. A vida, um poema?… Não quando se passa a vida a poetar em vez de vivê-la. Como ficava oca, então, como ficava vazia, vazia! Essa perseguição constante do próprio eu, no rastro das próprias pegadas – e em círculo, naturalmente… Essa comédia simulada: Fingir que se atira à corrente da vida e ao mesmo tempo ficar ali agarrado ao anzol, pescando-se a si próprio neste ou naquele curioso disfarce… Ah, se a vida quisesse submergi-lo… A vida, o amor, a paixão, de modo que ele não mais precisasse poetizá-la, porém apenas – em estado de poesia - vivê-la!
Involuntariamente, sua mão fez o gesto de quem afasta alguma coisa, de quem afasta um pensamento. A verdade é que, no mais íntimo, ele temia essa força que tem o nome de paixão. Esse turbilhão que leva pelos ares como folhas secas tudo o que um homem tem de sólido, de ponderável, de respeitável! Isso não era com ele. Essa labareda que se consome prodigamente na própria fumaça… não, ele preferia queimar lentamente.
E contudo era tão lastimável a existência a meio pano, em águas calmas, com terra à vista; se viesse ao menos uma ventania, uma tempestade!
Soubesse ele ao menos dirigir-se e desenrolaria todas as velas em direção ao alto mar da vida. E diria adeus aos dias monótonos; adeus, momentos de felicidade medíocre; adeus, ainda, pálidas emoções, que deviam ser aquecidas pela poesia para poder brilhar um pouco, e os débeis sentimentos, que precisam ser envoltos em sonhos tépidos, e ainda assim perecem de frio, adeus! Tomarei o rumo de terra onde as sensações enrolam-se como lianas opulentas em todas as fibras do coração – uma floresta virgem; para cada ramo ressecado há vinte outros em flor, para cada um que floresce, mais cem que brotam…(….)”
Jens Peter Jacobsen, in Niels Lyhne
0 comentários:
Postar um comentário