Desde 1865 o livro Alice no País das Maravilhas é
uma história que segue encantando e influenciando todas as gerações (minha
afilhada não se chama Alice por acaso!). E por este motivo é que encontramos
tão vasta produção que tenta espelhar a obra de Lewis Carroll, ou simplesmente
se baseia em alguns fatos e personagens marcantes para reconstruir as peripécias
de Alice em outros ambientes: somente para o cinema e televisão, são aproximadamente
22 adaptações da obra ou produções que trazem referências ao original.
Esta grande e psicodélica aventura teve início em
um passeio de barco que o autor realizou junto das três jovens filhas de um
amigo seu: Lorina, Edith e Alice. Muito inventivo, o senhor Charles Lutwidge
Dodgson (conhecido artisticamente como Lewis Carroll) criava histórias para
entreter as moças, que permaneciam encantadas... E foi assim que nasceu Alice
Debaixo da Terra, sendo o título substituído por Alice no País das Maravilhas
dois anos mais tarde e sofrido o acréscimo de mais personagens e capítulos,
para só então ser publicado. Seis anos depois, em 1871, acontece a estréia de
Alice no País do Espelho, uma espécie de continuação das loucas viagens da
pequena Alice (apesar de esta publicação ter feito grandioso sucesso na
Inglaterra, é a menos lida no resto do mundo, talvez por ser muito mais
complexa, não alcançou a mesma surpreendente fama do País das Maravilhas).
Introvertido e tímido, Carroll era um apaixonado
por matemática (a maioria de seus escritos tratam das exatas), além de ter sido
um aficionado por fotografar (em especial crianças), o que lhe rendeu muitos
adjetivos referentes à pedofilia. Do mundo infantil, temos apenas essa referência,
sendo que suas narrativas das aventuras de Alice nada tem de infantes. Aí você
me pergunta: Como assim? Pois acreditem! Alice não foi criado para ser um conto
de entretenimento infantil, e sim um livro que beira ao subversivo.
Por trás de tantos seres imaginários e um grande
amontoado de acontecimentos ilógicos, podemos encontrar várias interpretações
“adultas” para este livro que é praticamente o início do Surrealismo na
Inglaterra. Partindo do princípio que muitas das personagens e até acontecimentos
apresentados no livro vieram diretamente do cotidiano de Carroll, de dentro de
seu círculo social e de sua Inglaterra, os fatos das entrelinhas já passam a
ser mais claros. Mesmo com algumas modificações criativas (por exemplo, o
personagem Dodô é inspirado na gagueira do próprio autor), ainda assim podemos
encontrar a realidade escondida no subliminar maquiado pela história fantástica
dentro da toca do coelho.
Comecemos pelos poemas que Alice recita, muito
engraçadinhos e bem colocados dentro do contexto da história, eles são uma
sátira aos poemas enfadonhos que as crianças da época eram obrigadas a decorar.
Outro fator muito citado quando se compromete a analisar esta fantasiosa
narração, é justamente a passagem de Alice para a adolescência, sua
insatisfação com a situação, sempre atrás de um jardim mais florido, cansada das
mudanças que seu corpo sofre a todo tempo (vide a bela conversação com a
Lagarta).
Ainda citando a Lagarta, esta personagem tão
enigmática é praticamente a personificação da consciência confusa de Alice.
“Quem é você?” Extremamente filosófica esta pergunta vem a perturbar e levar a
um enfrentamento de si mesma, à busca do equilíbrio para o seu corpo através da
reflexão (momento da retirada dos pedacinhos do cogumelo).
Em outro momento, também podemos ver problemas
sociais retratados nesta narrativa aparentemente nonsense, como por exemplo, o
fato de Alice ter de controlar seus impulsos frente à Rainha de Copas para não
ter sua cabeça decapitada. Esta que usa da repressão para manter seu reino em
ordem, ameaças e represálias para ter suas vontades realizadas, sendo,
inclusive, superior a seu próprio marido o Rei de Copas. Devassa também é a
Duquesa, a qual está sempre rodeada de pimenta, sempre em sobressalto (a
pimenta é tida como um “adjetivo” da corrupção), junto ao seu adorável Cheshire
Cat (expressão idiomática que significa “hipócrita”), sorridente e bajulador,
dizendo o que as pessoas querem ouvir, para então poder livrar seu lindo
pescoço do machado, além de ganhar uns afagos pela sua sagacidade.
Nem tudo é corrupção, o Coelho Branco nos dá o
exemplo (dentre pouquíssimos, assim como na vida real) de alguém que está
sempre preocupado em chegar na hora certa e cumprir com suas obrigações, mesmo
que isso vá em contradição com todo o caos que o cerca (inclusive dá algumas
dicas para Alice, já na corte, para que ela mantenha sua cabeça no lugar).
Mas, porém, contudo... as adaptações
cinematográficas e televisivas não abordam esses fatores “maduros” da obra de
uma forma profunda (em alguns casos podemos ver momentos mais salientes, mas
nada de grande relevância). O lugar comum das produções de Alice é o foco no
lado meigo e divertido da história, realmente voltando-a para o público
infantil. Assim como as duas maiores produções de Alice no País das Maravilhas
nos mostram...
Em primeiro lugar temos a animação da Disney de 1951, a mais conhecida e
que talvez tenha alcançado um público maior de espectadores até então,
incluindo crianças, jovens e adultos, esta adaptação é conhecida e de certa
forma presente até os dias de hoje. Não é deveras fiel, sendo que algumas cenas
foram acrescentadas pelos seus diretores, fazendo com que os amantes do livro
não se sentissem exatamente “em casa” ao apreciarem a obra.
Em segundo lugar, e muito mais recente, temos a
produção de Tim Burton, que deu o que falar por ser um de seus piores trabalhos
e uma adaptação (neste caso sim, com o termo muito bem colocado) nonsense. Neste
filme temos Alice já com 17 anos, tendo uma segunda jornada no País das
Maravilhas, numa redescoberta de si (ela tem que se lembrar de quem era,
lembrar da jovem Alice que havia visitado o País das Maravilhas anos antes) e
tendo que lutar contra o mal (Rainha Vermelha) para a volta do bem (Rainha
Branca) ao seu lugar de direito. Uma nova visão de Alice e ao mesmo tempo uma
simplificação do universo complexo que Lewis Carroll havia criado, esta
produção merecia o nome de “Alice, o Retorno” (ou qualquer outro título que se
refira à continuações mal feitas), pois de nada é fiel ou faz jus ao livro. E apesar
de ter arrecadado mais de US$ 200 milhões apenas nos três primeiros dias de
exibição do filme nos EUA (imagino que isto se deva ao fato de ter-se gerado
grande expectativa pela estréia da produção e/ou pelo apresso que o diretor tem
do seu fiel público), apesar de seu lindo figurino e fotografia, além de
cenários fantásticos, Tim Burton não foi capaz de dar vida a esta nova visão do
clássico, deixando muito a desejar. “Out of his head!!!”
Apesar de estas duas produções serem as mais
conhecidas dentro da grande mídia, ainda temos muitas outras criações e
recriações a partir do livro que são mais fiéis e envolventes, mesmo quando
faltam efeitos especiais ou até mesmo cores, e que apesar disto, conseguem nos
levar fundo através da toca do coelho...
Alice através
dos tempos
Alice in Wonderland (1903) –
é um curta mudo do Reino Unido, sendo a primeira adaptação cinematográfica
feita para o livro de Lewis Carrol, que em muitos momentos parece uma sucessão
de xilogravuras devido a precariedade técnica da época. Direção de Cecil
Hepworth.
Alice
In Wonderland (1933) – produção em preto e branco da Paramount, sob a direção de Norman Z.
McLeod. Fora a inserção de algumas cenas retiradas do livro Alice no País do
Espelho (que virá a ser um recurso freqüente nas adaptações cinematográficas
seguintes), é uma das produções mais fiéis à obra original que temos até hoje.
Alice
in Wonderland (1951) - Animação realizada pelos estúdios Disney, não sendo a mais preferida
pelos amantes da história, apesar de ser a mundialmente mais conhecida. Recebeu
uma indicação ao Oscar (melhor animação).
Alice
in Wonderland (1966) - Episódio do seriado britânico “The Wednesday Play” produzido pelo
estudio British Broadcasting Corporation (BBC), sob a direção de Jonathan
Miller. Contém uma atmosfera sombria e letárgica.
Alice's
Adventures in Wonderland (1972) - Vencedor de dois British Academy of Film and
Television Arts (melhor fotografia e melhor figurino). Esta adaptação vem em
forma de musical, e além de honrar seus prêmios, também se mostra muito
interessante nas músicas e no fato de que o papel da Duquesa é realizado por um
homem. Direção de William Sterling.
Alice
in Wonderland: An X-Rated Musical Fantasy (1976) – Outra adaptação
musical, mas neste caso os figurinos são um pouco... reduzidos (principalmente
considerando o fato de o filme ser um musical pornô). Direção de Bud Townsend.
Malice in Wonderland (1982) - Curta
animado do diretor Vince Collins, que conta a história de Alice de uma forma
psicodélica e erótica, lembrando muito o estilo do desenhista Toshio Saeki
(muito mais pelo seu conteúdo do que pelos seus traços). Parece uma adaptação
de terror, tanto por suas imagens quanto pela trilha sonora.
Alice
in Wonderland (1985) – Outra versão realizada para a televisão, que mistura Alice no País das
Maravilhas e do Espelho, muito interessante apesar dos falsos cabelos
oxigenados da jovem Alice. Dirigida por Harry Harris Jr.
The
Care Bears Adventure in Wonderland (1987) – Com a direção de Raymond Jafelice, agora Alice vive
aventuras ao lado dos adoráveis Ursinhos Carinhosos. Ótima opção para os
saudosistas desse desenho que embalou gerações (assim como a nossa loirinha vem
fazendo).
Alice
(1988) – Produção de terror tcheca
que usa fabulosas técnicas de animação junto a atores reais. Sob a direção do
animador Jan Svankmajer.
Alice
in Wonderland (1999) – União de um elenco fascinante, efeitos especiais na medida certa, um
figurino vindo direto do país das maravilhas e muita fidelidade à idéia
original de Lewis Carroll. Apesar de não ser uma das mais conhecidas, é uma das
melhores produções já realizadas. Direção de Nick Willing.
Phoebe
in Wonderland (2009) – Apresenta o País das
Maravilhas como uma fuga psicológica da jovem Phoebe (Elle Fanning), que confunde
realidade com sonho. De grande sensibilidade trata sobre preconceito e
superação na vida de uma criança com síndrome de Tourette. Dirigido por Daniel
Barnz, traz uma linda trilha sonora e figurino.
Alice
in Wonderland (2010) – Sob a direção de Tim Burton, esta é uma adaptação do clássico que
mostra Alice já aos 17 anos, tentando fugir de um casamento arranjado e indo de
encontro com seu passado (dentro da toca do coelho). Apesar de seu visual muito
inventivo e colorido, a história não agradou muito, sendo um dos trabalhos mais
fracos do consagrado Burton. Última adaptação feita até agora.
[Esse artigo também pode ser visualizado na segunda edição da Revista CineON ]
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